Você lembra do entusiasmo e paixão que você demonstrava enquanto estudante, e no início da sua carreira como designer? Se lembra quando você era o “sobrinho do Corel”, mas se achava o designer? E qualquer job te deixava empolgado e motivado? Agora reflita: esse sentimento existe até hoje? Pois é, com o tempo, isso tende a diminuir e nós acabamos nos acomodando.

Muitos de nós, depois de alguma experiência e uma certa estabilidade, tratamos os nossos projetos como um produto em uma linha de produção. Aquela paixão e vontade de melhorar, acaba se diluindo em meio a vários jobs, prazos apertados e problemas com clientes. O que acontece é que todo novo trabalho que surge acaba sendo tratado da mesma forma, se tornando apenas mais um em meio a tantos outros que já fizemos. E no meio disso tudo, onde está aquela gana e entusiasmo para aprender algo novo e criar algo diferente e único para cada cliente?

Agora que o termo “design” está em voga, a pior consequência disso é que todo mundo se considera designer. E será que todo mundo sabe o que essa palavra significa e todas as implicações que ela tem? Em linhas gerais, a palavra “design” significa:

uma atividade técnica e criativa de desenvolvimento de projetos para a solução de problemas.

A verdade é que apesar de ser uma profissão onde a criatividade faz a diferença, nem todas as pessoas tem essa mente criativa. E sendo assim, quem não é, ou não se considera criativo tem que procurar se munir de boas referências e se manter atualizado com o que acontece no mercado, ou seja, a palavra-chave é dedicação.  Porque diferente do que a maioria das pessoas pensam, projetar não é um dom que nos foi dado, e também não é tão simples quanto só conhecer os plug-ins do PhotoShop.

Existem muitas pessoas com um dom natural para ilustração, modelagem 3d, fotografia (outros conhecimentos) e há também aqueles que dominam as ferramentas essenciais para o trabalho, entretanto só talento e/ou conhecimento técnico não são o suficiente, para se tornar um designer (um bom designer).  Tudo isso é apenas 5% de todo o processo.

Quando as pessoas se auto proclamam designers, elas precisam ter em mente que não será apenas  um curso,  que lhes rendeu o certificado, suficiente para torná-las tal profissional. É que  preciso ter em mente que o conhecimento técnico deve ser mais uma ferramenta e que não nos torna designers.

De fato, a nossa profissão é cheia de ramificações e por isso é muito difícil de ser explicada, mas a questão que estamos levantando não é definir o que fazemos, mas colocar em discussão que nos motiva.

A palavra “designer” realmente é bastante elegante e carrega consigo o status de um profissional diferente no mercado, e diferente de modo um positivo… Talvez por isso, muita gente queira associar esse termo ao que faz.

É importante pensar um pouco sobre isso, porque quem está a algum tempo no mercado sabe que o dinheiro acaba representando apenas 50% de toda a relação com os nossos clientes. Os outros 50% representam todas as alterações que os clientes pedem, a pressa que o cliente tem (porque como muitas pensam: projetar é algo que é fácil e rápido e por isso não vale o preço cobrado), atrasos no pagamento, os eventuais “favorzinhos” que os clientes pedem, etc.

Com tudo isso, quem não tem a motivação certa, pode acabar se desgastando e caindo naquele marasmo que muitas que já estão nesse mercado a alguns anos estão.

Imagem ilustrativa sobre dinheiro

E nós também sabemos que o dinheiro não é o mais importante, não é mesmo?

No início, fazíamos trabalhos de graça para os nossos parentes… Também já passamos pela situação de entregar o trabalho e o cliente não fazer o pagamento. Além daqueles clientes que pagam pouco com a desculpa que vamos criar uma parceria e nós é que temos muito a ganhar com ele.

Com todas essas situações estar acomodado não quer dizer que você não gosta mais de design, mas a falta de vontade em se desenvolver é preocupante, uma vez que o cenário de design no Brasil e no mundo está sempre mudando.

Como profissionais criativos, temos obrigação de trazer algo novo para cada trabalho, ou seja, não pode (pelo menos não deveria) existir um método mágico o qual você aplica a todos os seus projetos para chegar a um resultado ideal.

Clientes diferentes, com necessidades diferentes, exigem soluções diferentes, e por isso, não importa se você nasceu com um dom fantástico ou usa todos os softwares disponíveis no mercado, eventualmente o que você consegue fazer pode não ser o suficiente ou o projeto exigir algo que você (ainda) não sabe.

Quem entende isso, e até então não está motivado o suficiente para se dedicar e estudar, deveria se lembrar do início, do que o motivava. Diferente de um médico, por exemplo, que quando acaba o seu plantão ele pode ir para casa e não precisa ficar pensando em medicina, um designer não vai para casa (que as vezes é o próprio ambiente de trabalho) e esquece do que fazia horas atrás. Em muitas situações o trabalho continua em casa, e quando falamos que continua em casa, isso pode significar estar buscando mais referências e maneiras diferentes de solucionar aquele problema.

É realmente muito legal ver aqueles vídeos acelerados de projetos de design e ilustração que são compartilhados aos montes nas redes sociais. E eu tenho certeza que todo mundo que já viu algum vídeo desses com certeza pensou: “eu gostaria de saber fazer isso, dessa forma”. Mas o que separa esses profissionais de excelência dos demais, é o quanto eles amam fazer o trabalho deles, e foi esse amor que fez com que eles se dedicassem e estudassem o suficiente para aprimorar os seus talentos e o domínio de suas ferramentas de trabalho.

O título do texto é: “o designer que não quer ser designer”, mas poderia ser qualquer outra profissão. Em qualquer segmento existem aqueles que não nutrem um verdadeiro amor pelo que fazem. Sempre vamos encontrar aqueles que não procuram se desenvolver mais e mais, e se acomodam a partir de um patamar que consideram confortável.

Aquele que quer atuar em qualquer profissão precisa amadurecer tanto as suas habilidades quanto a mentalidade. E que significa amadurecer a sua mentalidade como profissional?

Significa entender que seus clientes não procuram simplesmente os profissionais com maior habilidade técnica no mercado, mas procuram também aqueles que vão agregar valor as suas marcas e produtos e por isso o que você fizer não deve ser o que ele quer, e sim o que o seu cliente precisa.

Imagem ilustrativa

Se tratando de design, principalmente no nosso país, esse tipo de profissional (acomodado) é extremamente perigoso para todo o desenvolvimento do cenário no Brasil.

Como já havíamos dito antes, o público ainda não enxerga o design como uma profissão como tantas outras já existentes e consolidadas no Brasil. As pessoas e empresas ainda não dão o devido valor (principalmente valor financeiro) a nós como profissionais e não veem o quanto o design pode agregar as suas empresas. E enquanto houver designers que tem esse tipo de postura que estamos levantando aqui, as pessoas ainda serão descrentes da importância do design.

Novamente traçando um paralelo com outras profissões, assim como um cozinheiro-chefe de um restaurante precisa sempre aperfeiçoar os pratos que já faz, e também aprender novos para manter a qualidade do restaurante, um designer precisa estar aperfeiçoando as técnicas que já domina e aprender novas para se diferenciar dos demais. Outro aspecto importante que vale ressaltar aqui é: procurar melhorar e desenvolver habilidade em várias técnicas diferentes.

Claro que nós sabemos que grandes designers são especialistas no que fazem, mas ser capaz de fazer mais de um tipo de trabalho é extremamente importante e útil, principalmente para quem está começando

TENHA REFERÊNCIAS

Devemos sim, ter várias boas referências e acompanhar o trabalho de profissionais de qualidade, no entanto, tais trabalhos e designers devem servir como referência, não devemos emular o trabalho dessas pessoas. Em uma época em que quase nada surge do zero, e muita coisa se copia: o design é antropofágico, ou seja, um canibal. Canibal no sentido de devorar muitas referências e a partir delas desenvolver o seu trabalho, a sua assinatura. Se abastecer de referências é uma ótima maneira de evoluir o seu trabalho, afinal, como dizem: você é, o que você come.

o design é antropofágico, ou seja, um canibal.

Nós podemos e devemos ter referências de diversas mídias (pintura, escultura, cinema, quadrinhos, tv…), porque cada suporte tem suas características que podem ser agregadas a diferentes trabalhos. Isso faz parte do trabalho do designer: se munir de referências, tentar replicar um determinado trabalho para aprender o processo que foi utilizado, usar aquele processo a sua maneira para criar um trabalho seu, autoral.

 

Isso é um hábito que todos deveriam manter, não só no início da carreira, mas durante toda a carreira. E esse tipo de atitude que representa o amadurecimento do designer.

SEJA REFERÊNCIA.

É necessário entender que ser designer também é, além de fazer design,  estudar e pesquisar sobre. E também que todos temos que buscar realizar trabalhos tão bons quanto aqueles que nos inspiram.

Após essas considerações o principal é: tudo que falamos ao longo desse texto, são atitudes que todo designer deve ter. Porque fazer design não é simplesmente aprender todos os softwares. O designer realiza projetos, e projetar vai muito além disso, existem vários processos até se chegar ao resultado final, e além de projetar  o designer também é um estudioso e um pesquisador. São essas atitudes que mostram o profissionalismo do designer e o difere dos outros “designers” que surgiram no mundo atualmente.

As melhores soluções não são encontradas por um gênio criativo. Existe muita pesquisa e estudo acerca de tudo o que envolve um projeto e toda nossa profissão. Você percebe o quão bom é o designer a partir das dificuldades daquele projeto, e saber que, os melhores trabalhos, são sempre os mais complicados. Uma boa pergunta que devemos nos fazer é: o que é ser designer? Ter um diploma ou desenvolver projetos únicos? Quem faz mais do mesmo pode se considerar designer?

Cada um vê e entende o design de uma maneira, e talvez por isso não exista uma única resposta certa. A única coisa certa, é que ser designer envolve tudo o que discutimos aqui e muito mais.

Existem vários segmentos de design no mercado, mas o profissionalismo deve se manter em qualquer um desses segmentos. Até mesmo para que sirva de exemplo para aqueles que querem fazer parte disso ou para quem se considera designer mas não tem as atitudes que já reforçamos aqui.

SER DESIGNER É:

Agora que já falamos bastante sobre muitas das dificuldades enfrentadas por nós,vamos falar das coisas boas dessa profissão. Ser designer é ficar empolgado toda vez que surge um trabalho novo e desafiador, e ficar orgulhoso após o trabalho pronto e elogiado. É ter grandes parceiros e clientes (grandes clientes são também seus parceiros). É saber que é muito mais que tomar (muito) café e usar camisa xadrez e reparar no cardápio da lanchonete. E principalmente saber que, designer que é designer, pesquisa, estuda, se inspira e acima de tudo, faz design.

A essa altura todos já identificaram um amigo que tem essas características. E se você não consegue pensar em ninguém, reflita se você é esse tipo de profissional. Pessoas assim prejudicam a si mesmas, a empresa que trabalham, seus clientes e a todo o cenário do design. É necessário mudar a mentalidade de que a nossa profissão é apenas o domínio de algumas ferramentas.

O design vai muito além disso. É criatividade, é tecnologia, é comunicação, e para atender as necessidades de um mundo que está sempre em transformação, o designer deve estar sempre se desenvolvendo.

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